Dança de roda

A expressão milenar, característica da região dos Balcãs

“Venho de um lugar onde a dança de roda faz parte da cultura tradicional. Dançar significa brincar: é algo que todo mundo faz. Se você fala para uma pessoa da Bulgária que haverá um casamento, todo mundo sabe que dançaremos em roda. É uma tradição muito forte. Os búlgaros, gregos, todos os balcãs tem a tradição de dançar em roda.” – nos conta Mariana Paunova.

 

Mariana, que chegou aos Brasil aos 25 anos de idade, conta que sentia muita falta de seu país, “sempre fui muito ligada às tradições locais” – afirma. Buscando resgatar suas tradições começou a praticar e, logo depois, a dar aulas. “A dança circular não era popular, havia pouco mais de 50 pessoas em São Paulo. Hoje, este movimento de dança é muito grande, cresceu demais. Quando comecei, em 2002, foi um grande desafio porque nossos ritmos são assimétricos, diferentes dos ritmos brasileiros.”

Mariana e o grupo brasileiro no Festival de Koprivshtitsa, Bulgária (2015)

As danças de roda compõem tradições milenares. Segundo a mitologia, a dança circular nasceu em Creta, juntamente com Zeus. Sua mãe, Reia, para salvá-lo de Chronos, seu pai, que devorava os filhos, o escondeu em uma gruta. Quando o bebê chorava, guerreiros posicionados ao redor de Zeus, dançavam e batiam em seus escudos, fazendo barulho para abafar o choro. Esta dança ao redor de Zeus é a origem da dança de roda.

 

Dubrovnik, Croácia (2017)

Ainda em Creta, uma das civilizações mais antigas do planeta há, em museus, pequenas esculturas de pessoas dançando em círculo. “Isso mostra que o primeiro movimento de dança já foi concebido em círculo. Essa tradição nos Balcãs está em toda parte – Grécia, Turquia, etc. – é muito forte, sagrada. Lá se dança para tudo” – afirma a professora, especialista em Croácia e estudiosa das culturas da Macedônia, Eslovênia e Servia.  “As crianças aprendem desde pequenas. Em todas as celebrações e festas sempre há a dança de roda. Dançar em par é uma coisa mais tardia, veio somente no século XX. Por isso, para nós, dançar em roda é natural.”

 

Mariana também conta que as histórias que envolves as danças, principalmente os rituais, lhe geram maior interesse. “Existe, por exemplo, o ritual dos que dançam sobre brasas. É muito antigo, sacramental, que acontece uma vez ao ano e somente as pessoas com esta vocação podem realizar, tornando-se canais de contato com as forças sobrenaturais para trazer mensagens à comunidade. São danças voltadas para o grupo, não para previsões pessoais. Minha pesquisa é sobre as danças ritualísticas, seu papel como parte da cultura e a devoção dos dançantes.”

 

Temos uma história muito longa e, por mais que não nos damos conta, carregamos essas informações no nosso DNA. O que era cura para nossos ancestrais, há várias gerações, é cura para nós também. Para mim, a dança é o modo mais lúdico, fácil e indolor de acessar o subconsciente e as camadas mais difíceis de serem trabalhadas pela psicologia, ou mesmo de serem acessadas de alguma forma. Eu acredito no poder curativo da dança justamente por isso: a dança acessa algumas camadas de informação dentro de nós, por meio de símbolos, movimentos, que a gente não entende racionalmente, não lê, mas o nosso corpo tem uma leitura perfeita. Afirmo porque tenho experiência direta com isso. A dança cria movimentos que despertam energia e nós somos energia. Isso liberta um poder dentro das pessoas que dançam – eu também não sei explicar, é uma resposta muito natural. Para mim é sempre uma grande surpresa ver que a dança desperta tanta vida dentro da gente. Por isso me dedico tanto às danças antigas.

As danças de roda compõem tradições milenares. Segundo a mitologia, a dança circular nasceu em Creta, juntamente com Zeus. Sua mãe, Reia, para salvá-lo de Chronos, seu pai, que devorava os filhos, o escondeu em uma gruta. Quando o bebê chorava, guerreiros posicionados ao redor de Zeus, dançavam e batiam em seus escudos, fazendo barulho para abafar o choro. Esta dança ao redor de Zeus é a origem da dança de roda.

 

Montanha de Pirin, Bulgária, 2018

Na cultura búlgara, acredita-se que a dança não se aprende explicando, mas sim dançando ao lado de outra pessoa, e “assim você pega a dança. Eu acredito nisso. Cada dança é um certo núcleo energético que produz uma certa vibração e o outro sente por osmose completamente. Por isso, eu levo as pessoas para lá, para dançar com as pessoas assim.” – Mariana organiza grupos duas vezes ao ano para dançar em festivais na região dos Balcãs, conhecer outros professores e movimentos.

 

Agios Achillios, Lago Prespa, Grecia 2018

Mariana Paunova oferece aulas de dança dos Balcãs (Bulgária, Macedônia, Romênia, Servia, Turquia, Grécia, Albânia) no Aqui Ali, às terças, das 17h às 18h30 – Unidade Pinheiros (Rua Simão Alvarez, 136, próximo ao metrô Fradique Coutinho)

Informações: contato@aquialidanca.com.br