Cilô Lacava e o Grupo de Improvisação de Movimentos Maria Duschenes 

Cumprindo um compromisso, Cilô mantém vivo o legado da revolucionária artista e mestra da dança

Apresentação no Centro de Referência da Dança de São Paulo
Foto: Vanessa Moraes

Maria Cecília Pereira Lacava – ou Cilô, como é chamada – coordena um grupo de dança que homenageia Maria Duschenes: o Grupo de Improvisação de Movimentos. Além disso, Cilô é professora de dança (realiza o curso Laban – Arte do Movimento no Brincar e na Arte no Instituto Sedes Sapientiae em São Paulo)[1] e em sua casa encontra-se o registro de suas memórias, uma belíssima história de vida dedicada à dança e à arte-educação – são fotos,
documentos, anotações de aulas e encontros. Aos 73 anos de idade recém completados, não só é possível ver o poder da dança e da arte: sentimos, em cada palavra, um amor puro. Simples e natural, como se fosse comum ser assim.

“Comecei a dançar sozinha em Penápolis, aos 7 anos de idade. Na vitrola, cada disco pesava “três quilos  e, a cada lado que tocava, tinha que trocar a agulha. Meus pais saiam para trabalhar, minha avó ficava na lida entre a cozinha e o quintal, que era um grande pomar, e eu ficava criando minhas danças sozinha. Nunca ninguém soube que eu dancei. Cheguei em São Paulo em janeiro de 1970. Um mês e meio depois descobri a Escolinha de Arte de São Paulo, descobri Laban, Ana Mae Barbosa[2], todo o povo da arte-educação e nunca mais parei.”

Cinco anos depois, em março de 1975, começou a dançar com Maria Duschenes[3], tornando-se então discípula da bailarina, coreógrafa e educadora. “Enquanto ela esteve viva eu acompanhei Dona Maria”, afirma Cilô.

Nos últimos anos da Dona Maria em São Paulo, em meados dos anos 90, Cilô era “convocada” frequentemente para ir até sua casa. “A empregada dela me ligava, eu ia lá conversar, fazer algum trabalho corporal. Eu nunca sabia o que faríamos e eu sempre ia, para o que fosse.”

Nestes encontros, Maria Duschenes contava muitas histórias do tempo de sua juventude, falava sobre movimento, adentrava na época que conheceu e namorou seu marido, o professor Herbert Duschenes, ou sobre sua vinda da Hungria. Em um desses encontros, Cilô assumiu um compromisso: “eu falei para ela ‘D. Maria, a senhora pode ficar sossegada que eu me comprometo a dar continuidade no trabalho de improvisação de movimentos que fazemos, do melhor jeito que eu puder.”

Já nos anos 2000, quando D. Maria e seu marido encerraram a vida aqui em São Paulo, se mudaram para o Guarujá, no litoral. Foi quando sua saúde se debilitou rapidamente.

Por uma séria de questões pessoais e familiares, Cilô precisou adiar a realização do compromisso assumido.

Cilô Lacava e Maria Duschenes, em um dos encontros em uma pizzaria, alguns anos atrás

Até que “os encontros aparentemente fortuitos da vida favoreceram que eu encontrasse pessoas que dançavam com D. Maria. Encontrei um casal em uma exposição de artes plásticas (ambos são artistas plásticos), e eles me disseram ‘se você algum dia organizar algo para dançar, nos chame’. Depois encontrei mais uma pessoa pelos mundos da dança, que me falou a mesma coisa”.

Mesmo sendo uma pessoa que se diz muito tímida, “se eu não estou falando de trabalho, é um problema meio insolúvel”, Cilô sempre foi um tipo de ‘promoter’ do grupo de D. Maria, como ela mesma diz. Era conhecida por organizar saídas noturnas ou mobilizar o Grupo de alunos para participar de apresentações de Improvisações em São Paulo (no Instituto Goethe, no Centro Cultural São Paulo, por ex). Associada ao seu relacionamento próximo com D. Maria, justifica-se a expectativa da formação de um novo grupo, seguindo os ensinamentos da precursora.

“Levei 2 anos ainda para conseguir falar com um amigo da dança para que ele nos acolhesse no seu espaço – O Lugar, da Companhia Corpos Nômades, de João Andreazzi, em frente ao Parque Augusta. Era uma casa de época maravilhosa. Este local durou muito tempo, e teve um papel muito importante na vida da dança contemporânea na cidade.  Encerrou suas atividades agora recentemente, no segundo semestre de 2019. Conseguimos nos reunir e, em abril de 2011, aconteceu a primeira reunião. Éramos 5 pessoas: Luci, Tarcísio, Marcelo, Rosana e eu.”

O grupo do primeiro encontro, em maio de 2011, em O Lugar, espaço de João Andreazzi.
Foto: João Andreazzi

O grupo – ainda sem nome – seguiu se reunindo mensalmente neste local até que, em 2014, surgiu a oportunidade de realizar uma residência artística do projeto ÂMBARGRIS na Funarte[4], criado por Andreia Yonashiro e Barbara Malavoglia – mentoras intelectuais e artísticas desta ocupação que teve um olhar diferenciado para a diversidade de pensamentos de dança.

Enquanto isso, o grupo seguia crescendo. “Em um outro espetáculo de dança encontrei a Marta que havia sido aluna da D. Maria desde os 6 anos de idade. Ela juntou-se a nós. Depois chegou Virginia, que também foi aluna da D. Maria em um grupo, mas a gente não se conhecia – só a conheci quando ela veio ser minha aluna. Silvia também foi do grupo de Improvisação do núcleo que se manteve até o fim com D. Maria.”

Foi por conta do trabalho realizado na Funarte que surgiu o nome do grupo, pois era preciso identificá-lo nos folders de divulgação. “Até então nós éramos o grupo de alunos da D. Maria que se reunia para dançar porque não podíamos viver sem aquilo. Literalmente não dá para viver sem aquela ideia de criação artística. É assim mesmo, literal.” – conta Cilô, emocionada.

Foi no alvorecer de uma madrugada que Cilô definiu o óbvio: o grupo não poderia ter outro nome que não fosse ‘Grupo de Improvisação de Movimentos D. Maria Duschenes’. “Enviei um e-mail para o filho dela, escrevi ‘Roni, estamos vivendo isso, isso e isso, eu quero saber se tudo bem nos nomearmos com este nome.’ Ele agradeceu, disse que seria uma honra. Depois mandei outro e-mail para o grupo falando ‘aqui está o óbvio!’. Desde essa madrugada passamos a ser chamados por este nome”. Isso foi no final de maio de 2014. Alguns dias depois, recebemos a notícia do falecimento da nossa Mestra.

Em 2016, no Centro de Referência da Dança de São Paulo
Foto: Marcos Aidar

Sobre o Grupo de Improvisação de Movimentos Maria Duschenes
“Nos encontramos para dançar e nos encontramos dançando”

O pensamento do Rudolf Laban, cujo conhecimento D. Maria trouxe ao Brasil, é o eixo principal para os estudos e pesquisas de movimento. Juntamente com as referências das pessoas do grupo, suas experiências pessoais em movimento, e de vida – é preservado o ambiente de liberdade, considerado fundamental.

“Movimento: a experiência básica da existência”
Rudolf Laban (1879 – 1958), foi um dançarino, coreógrafo, teatrólogo, musicólogo, intérprete, considerado como o maior teórico da dança do século XX e como o “pai da dança-teatro”.

Cilô define-se como provocadora do grupo. “Eu não sou a professora, sou a provocadora. Eu organizei a existência do grupo e o dirijo, mas dentro de critérios completamente fora do esquadro que você imagina ser dirigir um grupo de dança. Nós pensamos juntos,  e isto faz toda a diferença. É um olhar para preservar o máximo da liberdade que foi o que vivemos com D. Maria.”

Como organizadora, ela é responsável pelos contatos, suporte, reserva de espaço para reuniões e apresentações. “Até o ano passado, nos apresentamos publicamente uma vez por ano. Nos apresentamos no espaço do João. Na Funarte era uma residência artística quinzenal e a cada 15 dias nos apresentávamos pelas regras de utilização do espaço, abertos para o público.”

 

 

Em apresentação no CRDSP. Fotos: Vanessa Moraes

Uma homenagem que resiste, há 9 anos, às atribulações da vida na metrópole

 

Por conta da dinâmica de vida profissional dos participantes e as demandas pessoais variadas, o grupo se reúne uma vez por mês.

“Depois do espaço do João Andreazzi, fomos para o espaço da Artista da Dança, a bailarina e coreógrafa Ruth Rachou, também na Rua Augusta, onde ficamos quase um ano. Depois daqui tivemos alguns encontros na  “Cia Corpo Agonizantes’ do Sandro Borelli, na Barra Funda. Dali fomos para o Centro de Referência da Dança, embaixo do Viaduto do Chá, onde ficamos por dois anos e meio, completando cinco residências artísticas.”

Em 2018, com a inauguração do Aqui Ali, os encontros do grupo mudam-se para a Unidade Pinheiros, na Rua Simão Álvares.

Reunidos para o clique no Aqui Ali. Em pé, a partir da esquerda: Marcelo Vilares, Rosana Mariotto, Marta Tereza Labriola, Tarcísio Tatit Sapienza e Virgínia Costábile. Sentadas, da esquerda: Odete machado, Luci Lurico Oi, Cilô Lacava e Silvia Pinheiro Machado. Ausente na foto: Dayana Cristina Chrisóstomo da Silva.

“A cada encontro, no último um ano e meio, uma pessoa do grupo ficou responsável por eleger o tema de estudo de movimento e levar a trilha sonora. Nós temos uma dinâmica muito própria, que é característica do grupo e que já vem da D. Maria: são 2 horas de encontro. A primeira hora é o momento da chegada, com uma festa do reencontro mensal. Depois cada pessoa vai para o que precisa individualmente: há quem precise ficar muito quieto durante meia hora, quarenta minutos, por exemplo. Cada um atende a sua necessidade de chegada para a improvisação. Era o que acontecia com a D. Maria: a aula dela era às 7h, quem podia, chegava às 6h, se trocava, ia para a sala e começava sua preparação. Agora fazemos isso aqui em 2h. Uma hora de chegada e mais uma hora de improvisação – que dá um CD inteiro. Conversamos sobre o que aconteceu, como foi, se alguém do grupo fotografou, a gente se reúne e assiste às imagens.”

Findo este “um ano e meio de cada pessoa trazer o tema e a trilha sonora, começou a rolar uma outra ideia, em agosto deste ano, que é desdobramento deste período. Agora estamos vivenciando uma outra atitude de exploração do movimento. Pude observar e fotografar e tirei um núcleo de tema de movimento que foi devolvido para o grupo. O foco principal é ESPAÇO e a partir deste tema, e do que vem acontecendo, estou criando e devolvendo provocações para o grupo – para os estudos de movimento. No último encontro de setembro aconteceu uma evolução muito marcante, intensa e significativa na qualidade de criação artística de movimento – muito maior que no ano anterior. Entramos em uma nova etapa”.

Em sua carreira, Cilô sempre trabalhou com o pensamento Laban, associando-o a outras práticas – “sou eutonista[5] – é tudo junto, tudo conectado, costurei as duas coisas e, a meu ver, só não é mais natural porque não dá para ser mais natural costurar estas duas coisas. Além do movimento e a dança como consequência, tinha também artes plásticas – trabalhei com crianças muito tempo a parte de artes plásticas e jogos dramáticos. É a evolução natural do pensamento dramático das crianças, conforme evoluem os processos cognitivos delas no mundo. A grande paixão da minha vida é trabalhar com estes pequenos”.

Sobre o futuro do grupo, Cilô brinca: “o que eu sei é que continuaremos até o último encontro deste ano com provocações ligadas a espaço”, e afirma que “a existência do grupo, com suas reuniões e apresentações, são homenagens realizadas para ela, D. Maria, enquanto a gente existir e estiver reunido, dançando.”

Quanto às orientações para a composição deste texto, Cilô foi bastante enfática: “colocando a fonte, pode usar”. A fonte é ela mesma: mente e corpo privilegiados pela prática da liberdade com a dança.

E, para finalizar, diz: “eu gosto dessa fonte, Comic Sans.” Então lá vai.

 

Para saber mais:

Maria Duschenes no Itaú Cultural: https://enciclopedia.itaucultural.org.br/pessoa252508/maria-duschenes

Maria Duschenes no MUD (Museu da Dança):

http://www.museudadanca.com.br/maria-duschenes/

Facebook do Grupo de Improvisação de Movimentos Maria Duschenes

https://www.facebook.com/grupodeimprovisacaomariaduschenes/

Alguns vídeos:

https://www.youtube.com/watch?v=6PTdnaNTTRs

https://www.youtube.com/watch?v=OQ_ir2ajIOc

Sobre Rudolf Laban

Laban foi um dançarino, coreógrafo, teatrólogo, musicólogo, intérprete, considerado como o maior teórico da dança do século XX e como o “pai da dança-teatro”. Dedicou sua vida ao estudo e sistematização linguagem do movimento em seus diversos aspectos: criação, notação, apreciação e educação.

Para Laban, o pensamento humano não seria o que é sem a arte, a representação das qualidades sublimes do homem. E a dança, como forma de arte, torna-se a mais rara e a mais admirada das manifestações artísticas.

Graças às suas características pessoais e à diversidade de experiências na infãncia, cria, através de seus conceitos e de suas experiências, uma nova concepção de dança. Na dança, não considera apenas a graciosidade, beleza das linhas e leveza dos movimentos mas a liberdade que possibilita à pessoa expor-se através dos próprios movimentos e encontrar a auto-suficiência no próprio corpo. O ensino não ocorre apenas pela técnica, como no Balé Clássico e Jazz, mas deve ter sentido educativo e pessoal, conforme o ritmo interno de cada um. Sua proposta de dança resgata a movimentação espontânea e a integração corpo-mente. Tem por preocupação resgatar os atos espontâneos pela dança, levando as pessoas a pensarem em termos de movimento e a encontrarem suas próprias formas de expressão.

Fontes:
Marta Thiago Scarpato O corpo cria, descobre e dança com Laban e Freinet, disponível em http://repositorio.unicamp.br/bitstream/REPOSIP/275319/1/Scarpato_MartaThiago_M.pdf

[1]http://sedes.org.br/site/cursos-sedes/laban-arte-do-movimento-no-brincar-e-na-arte/

[2] Pioneira da arte- educação no Brasil, Ana Mae Barbosa é responsável por elaborar a Abordagem Triangular (conhecer a história, fazer arte e saber apreciar uma obra), que trazia elementos da teoria freiriana para pensar o ensino de arte. É amplamente referenciada em escolas, museus e faculdades de pedagogia no país, na América Latina e no mundo.

[3] Maria Duschenes foi a responsável por trazer ao Brasil a Teoria do Movimento de Laban e o método Dalcroze Eurhythmics. Como educadora, valorizava o repertório de movimento de cada aluno, num ambiente de pesquisa propício à criatividade para novas buscas. Duschenes foi tema da primeira edição deste blog. O texto completo está aqui: http://aquialidanca.com.br/2018/12/28/cultura-que-danca/

 

[4] Fundação Nacional da Artes, órgão vinculado ao Governo Federal para promoção de artes e cultura. Um de seus espaços fica localizado na Barra Funda, em São Paulo

[5] A Eutonia é uma abordagem de educação somática em que a pessoa acessa a sabedoria que é própria do corpo. Por meio da atenção às sensações, promove a ampliação da percepção e da consciência corporal, propiciando a flexibilização do tônus contribuindo no cuidado das dores e do estresse, além de uma melhor adaptabilidade do corpo para as diversas ações no cotidiano e nas atividades artísticas e esportivas.