Mulher do Fim do Mundo: manutenção e criação em cena

A apresentação, da Cia. Nau de Ícaros, traz para o palco uma construção cênica em dança

Desde 1992, a Cia. Nau de Ícaros cria e produz espetáculos que unem o conhecimento e a prática das técnicas circenses ao trabalho com teatro e dança. Seu trabalho é fundamentado em pesquisas dos diversos aspectos da cultura popular e contemporânea.

No último dia sete deste mês, aconteceu no Aqui Ali Pinheiros, o espetáculo Mulher do Fim do Mundo. Buscando na relação entre gesto, palavra e movimento, revelar o diálogo entre as diversas paisagens subjetivas do universo feminino, a apresentação é inspirada nas obras de artistas como Anette Messager, Paula Rego e Mierle Laderman, e traz para a construção coreográfica a relação entre manutenção e criação na vida cotidiana, assim como a importância desta relação na construção de novos mundos.

O ponto de partida para a concepção do espetáculo foi o título da música “Mulher do Fim do Mundo”, de Alice Coutinho e Rômulo Fróes, na voz de Elza Soares. “Nos perguntamos por alguns meses qual seria o fim do mundo para nós, essas mulheres que somos. Para ajudar a responder essa pergunta, nos apoiamos em muitas artistas maravilhosas e performáticas e muitas teóricas também, que rechearam de palavras e imagens nosso caminho a essa ‘resposta’” – por Erica Rodrigues e Letícia Olomidará Doretto, criadoras do espetáculo.

Ao mesmo tempo, a dupla considerou a importância de encontrar “o nosso lugar de voz que pudesse ressoar os tantos elementos e vivências que nos afetaram tão profundamente nesse caminho – vivenciados nos jantares performáticos que compuseram nossa pesquisa com mulheres incríveis, das falas e reações às performances realizadas nas ruas da cidade de São Paulo, do experimento realizado no Centro de Referência da Dança, das frases emocionantes das ‘cartas para o futuro’ que nos foram enviadas por muitas mães à suas filhas e principalmente da vivência tão profunda realizada com as mulheres na Penitenciária Feminina de Santana, proporcionado pelo Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD). Tivemos o privilégio durante esse processo de nos deparar com encontros que não param de reverberar em nossos corpos e é justamente isso que desejamos com esta apresentação: expor e partilhar com vocês a potência dessa trajetória.”

Partindo do manifesto de Mierle Laderman (“CARE” de 1969), foi traçado um paralelo com as próprias vidas das artistas e criadoras, expondo essa relação entre corpos e movimentos. “Adentramos em nossos corpos, chacoalhamos nossas relações, trouxemos à tona nossas subjetividades, reconhecendo e valorizando nosso lugar de voz. E acreditamos que ao falar de algo particular, também falamos de algo coletivo, que o que nos afeta também poderá afetar muitos outros e outras.”

Ao subverter o valor dos trabalhos de manutenção, tantas vezes ligados somente ao universo da mulher, “Mulher do Fim do Mundo” busca subverter o que é feminino, trazendo luz para o que era até então invisível para as próprias criadoras e, mais do que pensar sobre o que seria o fim do mundo, propõe olhar para uma possibilidade de construção de novos mundos. “Um futuro (ao nosso ver) que requer cuidados – cuidado com as relações, com o planeta, com a terra.”

Ficha Técnica

Duração: 40 minutos
Criação e concepção: Erica Rodrigues e Letícia Olomidará Doretto
Cocriadoras: todas as mulheres visíveis e invisíveis que encontramos nesse processo
Direção colaborativa: Roberto Alencar, Dani Lima e Marco Vettore
Figurino: Chris Aizner
Trilha Sonora: Simone Sou e Gustavo Souza
Cenografia: André Cortez
Iluminação: Wagner Freire
Fotos: Alexandre Catan
Material Gráfico: Naná Mendes da Rocha e Maria Cau Levy
Vídeo: Bruta Flor Filmes (Cacá Bernardes e Bruna Lessa)
Preparações corporais (workshops): Vera Passos, Miriam Druwe, Henrique Lima, Roberto Alencar
Produção Artística: Junior Guimarães
Administração: Álvaro Barcellos
Comunicação: Celso Reeks, Gabriel Camargo e Marina Camargo
Direção Geral: Marco Vettore

Sobre a Cia Cênica Nau de Ícaros

São 16 espetáculos produzidos e criados no Brasil e levados mundo afora.  Composta por atores, autores, produtores, professores, pesquisadores, bailarinos, músicos, acrobatas – uma mistura que se transforma em um corpo, individualidades que trabalham juntas. Um corpo que se move, se mexe e de constrói pela simples paixão de criar, explorar, encantar, transcender, ir além.